Muricy promete Fla agressivo e um time que misture boa posse de bola com velocidade

Escaldado após os problemas de saúde, Muricy Ramalho promete moderação à beira do campo. Mas nem ele parece crer que mudará a forma intensa de viver o futebol. Hoje, sua prioridade é deixar um legado no Flamengo. Planeja um time ofensivo, montado num 4-3-3 e com uma filosofia de futebol aplicada em todas as divisões de base. Nesta entrevista, explica o que espera do rubro-negro em 2016.

Sua ideia no Flamengo é unificar um estilo de jogo ou também o sistema tático em todas as categorias?

As duas coisas. Ter um sistema, ver o que o Flamengo gosta, o que o torcedor gosta. Depois vêm os conceitos de treinamento para defender estas ideias. No Brasil, cada treinador que chega implanta o conceito. Para mim é o contrário. A troca de treinador constante no Brasil não permite ter filosofia, não se tem ideia de nada. É importante o Flamengo ter.

Conversou com dirigentes para conceber o modelo de jogo?

Não perguntei aos dirigentes, mas vejo muito futebol, ouço, sinto. Você percebe que o Flamengo precisa ser agressivo, rápido. O torcedor é inquieto, quer que o time vibre, não toque muito de lado. Tem que ter posse de bola com objetivo.

Vê risco de violentar características na base ao definir um esquema?

Não gosto de forçar, vou conversar com os treinadores da base. Estudamos muito o Flamengo. Era o time de pior posse de bola, maior índice de passe errado, que mais lançava bola na área, não cruzava do fundo. Futebol hoje é posse de bola, boa transição e a velocidade na parte final. O Barcelona tem essa ideia implantada lá atrás pelo Cruyff, e clube e torcida compram a ideia. Na Copinha, o time joga mais ou menos como eu penso. Um volante, dois meias e os três da frente. Tem que ser todo mundo assim. Pela manhã, vou trabalhar o profissional e, à tarde, com a base. Implantar treinos que defendam isso: goleiro treinar na linha, trabalho de saída de bola.

A ideia gira em torno de um 4-3-3 ou 4-1-4-1. É importante achar o camisa 5, que saiba sair jogando bem?

É mais um 4-3-3, com dois meias à frente. E o camisa 5 precisa saber jogar. A gente pensou no (chileno) Marcelo Diaz, que vem entre os zagueiros iniciar a jogada. É especialista em fazer a transição e não sair a bola quebrada. Num time agressivo, a perda da bola gera contra-ataque. Tem que melhorar a posse, ainda que a característica do time seja de velocidade pelo lado, com Sheik, Marcelo, Éverton, Gabriel…

Faz falta aos clubes um profissional que seja um guardião dessa filosofia?

Há um vazio nesta relação entre a diretoria e o futebol. Precisa de um especialista. No futuro, quero ir para esta área.

O rótulo de “Muricybol” dado ao São Paulo tricampeão era injusto?

Nós, treinadores, temos que melhorar. Mas vocês (imprensa) também. Colocam um rótulo e não estudam, prejudicam as pessoas. Do Santos que ganhou a Libertadores e dificilmente fazia gol de cabeça, não falavam nada. O Cruzeiro foi campeão com o time que mais levantava bola na área. Eu tenho personalidade, acredito na democracia, não vou mandar assessor reclamar. Mas, se deixar pingando, eu vou te dar uma porrada, não sou vaselina. Sabe o que é ser tricampeão num país como o Brasil e a cada ano com um time? É f…. ser técnico no Brasil, perdendo jogador. E tem o desgaste de ficar muito tempo num lugar. Ser tricampeão num lugar em que querem te derrubar a toda hora, como o São Paulo, não é fácil. Não se ganha três Brasileiros só com bola alta.

Você era pressionado no São Paulo?

Pelo tipo de pessoa que sou… Não tenho cintura, faço o que acredito. O clube e o torcedor são o mais importante. O dirigente chega com um jogador e, se não é bom, não contrato. O presidente deu 30 nomes agora no São Paulo, eu não trouxe nenhum. Não me meto em transação, não quero saber quem ganha dinheiro. Ser assim no Brasil é f…. Ganhar Brasileiro, Libertadores, não é sorte. É trabalho pra c… E em clube grande tem que ganhar. Se não, vai pro saco. Aí vocês falam: “ah, não é só ganhar”. É só ganhar, sim. Se não vão criticar, o dirigente vai ouvir e demitir.

Ainda acredita no “quer ver espetáculo vai ao Teatro Municipal”?

Isso foi porque tinha um babaca que eu tinha que dar um porrada. Fazer time que joga bem é a melhor coisa do mundo. Adoro comer filé mignon, mas tem dia que tem que comer coxão duro. Tem que ganhar. O brasileiro não vai aceitar time que joga bonito, mas não ganha. Pode ter certeza que eu também quero jogar bonito, joguei futebol e bem. Acho bonito. Mas, sem ganhar, não dura. A crítica começa por vocês. O dirigente não é preparado e compra a ideia.

Contrato de dois anos dá segurança?

Os caras queriam três, e eu só aceitei dois. Não tem segurança. Tinha proposta mais vantajosa, em lugar mais preparado. Aceitei porque é um desafio, ganhar no Flamengo deve ser f…. E vamos tentar melhorar a estrutura, a base. Estou no fim da carreira e não empolga mais só dinheiro. Quero deixar alguma coisa. Se não, iria para a China ganhar R$ 2 milhões. No Brasil, tudo é urgente. Treinador não pode só pegar muleta e dizer que precisa de tempo. Aqui não tem tempo. Então, tem que diminuir o tempo treinando mais. Não tem como pedir cinco meses. Respeita a característica do jogador, arruma um esquema que eles se sintam bem, que a torcida goste.

Jogar o Carioca com time principal mudou o planejamento?

Eu não mexo na estratégia do clube, mas ficou muito melhor. Iríamos usar garotos no Estadual e poderia ser um risco. E antes chegaríamos no Brasileiro com pouco jogo, o time ia jogar de vez em quando.

Juan será importante por conhecer o clube? Ele impõe cuidados táticos?

Ele traz o espírito que a gente quer nos jogadores, essa foi a ideia. Um representante do Flamengo, que a torcida gosta. Mas, claro, não pode deixar as laterais abertas. Para jogar assim teria que ter dois zagueiros muito rápidos. Juan não pode ficar tão desprotegido, correndo tanto para o lado. Estamos buscando um zagueiro rápido.

O julgamento foi duro com o Guerrero no ano passado?

Foi. Estudamos os dados para entender o 12º lugar e por que se ganha seis partidas, com o Guerrero arrebentando, e perde sete em oito. No Flamengo, o cara chegava muito bem treinado. Mas, pela falta de aparelhos, ele destreinava, baixava a parte física. Não pode um jogador desse nível e categoria chegar tão forte e, de repente, cair. Não é por ele, é pela parte física.

O problema de saúde o fez ver a vida de forma diferente?

Quando estava na UTI com arritmia. Ali resolvi parar um pouco. Nunca tinha entrado num lugar daquele, não tem parede. Você ali entubado e eu nunca tive nada. Falei para a minha mulher: “O que eu estou fazendo aqui?” Eu tenho casinha no meio do mato, tenho casa de praia, não cuidei dos meus filhos, não vivo com meus amigos, isso aqui não é vida. Expliquei o caso no São Paulo e fui me cuidar. Mas no trabalho não tem jeito. Se você não for exemplo para esses caras, eles não vão comprar sua ideia. Então é difícil mudar. Vou ter um pouco mais de cuidado na beira do campo, mas não dá para mudar a intensidade de trabalho. Se fizer, não serei eu.

Fonte: O Globo