Presidente de Ferj chama Liga de milícia e diz que Fla e Flu não tem coragem para se desfiliar

Horas depois de a CBF emitir um comunicado vetando a realização da Copa Sul-Minas-Rio em 2016, o presidente da Ferj, Rubens Lopes, mostrou que ainda não está totalmente seguro de que a confederação agirá de forma firme para barrar o que chama de “anarquia”. Lopes qualifica os clubes insurgentes como “milícia” e diz que falta coragem para que peçam a desfiliação. De acordo com o dirigente carioca, ou a CBF impede a competição, ou não tem condição de existir.

Confira a entrevista de Rubens Lopes ao blog:

GloboEsporte.com: A partir de 30 de janeiro, se peitarem e jogarem de qualquer forma, o que acontece depois dessa posição tomada pela CBF?

Rubens Lopes: – A CBF aposta no entendimento, aposta no que foi conversado com o Gilvan e comigo, com apoio das outras federações. O importante é que se diga que os outros pensam como eu, mas nem todos têm coragem de dizer. Mas pensam e querem que alguém faça por eles. O compromisso que foi assumido é o seguinte: que não colocaríamos nenhum obstáculo para qualquer amistoso, desde que fosse até o início do Estadual. A partir do início do Estadual, eles assumem o compromisso de não participar de nada.

Mas Flamengo e Fluminense assumiram esse compromisso?

– Essa foi a conversa com o Gilvan (Tavares, presidente da Liga e do Cruzeiro). Como representante dos clubes que o escolheram, penso que possa falar por eles. Agora, o ponto fundamental da discussão é o seguinte: vamos respeitar a legalidade ou vamos entrar na anarquia? Esse é que é o ponto. Existem dispositivos legais que devem ser respeitados. Qualquer coisa que viole isso é inaceitável. Ninguém é obrigado a fazer parte de instituição nenhuma. Qualquer clube pode se desfiliar de qualquer federação. Mas enquanto permanecer vinculado ao sistema Fifa, necessariamente tem de cumprir, queira ou não, as disposições que estão esculpidas no estatuto da Fifa, no estatuto da CBF… E se houver descumprimento, e a minha expectativa é que não aconteça, não há nenhuma necessidade de um enfrentamento, já se admitiu que para 2017 vamos debater e discutir a competição…. Qualquer coisa diferente disso é afronta, um enfrentamento, e a CBF, imagino, não pode permitir de forma nenhuma que isso aconteça pois tem como obrigação zelar por seu estatuto.

Sim, mas os clubes não escondem que é uma afronta, é um movimento também político, que tinha outros objetivos além de realizar uma competição regional. Como a CBF e a Ferj encaram isso? Se peitarem, o que acontece de imediato?

– O que a CBF vai fazer eu não sei. A Ferj vai cobrar da CBF que ela cumpra o estatuto dela e da Fifa, obrigatoriamente. Senão, faremos gestão junto à Fifa, apontando que a CBF está permitindo a anarquia. O que todo mundo quer? É anarquia? Alguns lutam pela legalidade, outros por atitudes de milicianos. Os milicianos estão com a razão? Depende, a CBF é que vai decidir. Se vai ficar do lado legal, ou do lado da milícia.

O Marco Polo del Nero tem interferido nessa discussão de alguma forma?

– Não sei.

Com o senhor diretamente, não?

– Não. Na verdade, eu não sei. Tratei isso com o Feldman, com o presidente Nunes no dia que teve a reunião com o Gilvan. Só quero que cumpram a sua função, que eles têm obrigação de cumprir. Ninguém quer mudar regra de jogo, ninguém quer virar mesa, ninguém está inventando regra para se beneficiar de nada. Esses clubes deviam ter pelo menos a coragem, que falta neles, de se desfiliar. Falta coragem para desfiliar. Eles querem, de verdade, que alguém tome a iniciativa por eles. Se eles não querem ficar, eles que saiam. Agora, cadê a coragem para fazer isso? Não tem. Basta um simples requerimento. Agora, como falta coragem para isso estão jogando para a torcida, transformar em um movimento político, transformar ações milicianas em ações legais, afrontando a Justiça Desportiva, a CBF, tudo… Se a CBF permitir isso, e eu acho que não permite…

O senhor acha que não vai permitir, mas pelo que dá para perceber, mesmo com esse comunicado da CBF nesta segunda, não está muito seguro disso…

– Eu respondo por mim, não respondo pela CBF. Efetivamente, respondo pela Ferj e a Ferj não se afasta da legalidade um milímetro, para nada. Vamos respeitar o que temos de ser respeitado. Tem de cobrar da CBF.

Já foi cobrado, falam em entendimento…

– Quando digo que falta coragem em alguns… A Federação Mineira de Futebol, por exemplo. A Ferj proibiu os árbitros de participarem de qualquer partida que ela não autorize. A Mineira não tem coragem de fazer isso.

E pensa igual?

– Não sei se pensa.

Nem a Mineira, nem a Catarinense, nem a Gaúcha…

– A Gaúcha o presidente já deu uma declaração se posicionando ao lado da CBF. A Mineira não se pronunciou. A Paranaense também em apoio à CBF. E a gente sabe que o presidente de Catarinense está em briga pelo poder na CBF.

O senhor considera que ganhou força na CBF?

– Não estou em busca de espaço, não estou preocupado se vou ganhar força ou não vou. A minha bandeira é a da legalidade. O que se está querendo implantar, é anarquia. Se isso ajuda, deixa de ajudar… Eu acho que ajuda, porque a CBF não vai compactuar com atitude miliciana. Repito esse negócio dez vezes. A minha bandeira é a da legalidade. Tanto é que os amistosos que os clubes pediram, foram concedidos. Por que pediram? Não precisava. Se quisessem um enfrentamento… Porque o estatuto a que eles estão obrigados impõe que, para fazer qualquer jogo, têm de pedir autorização à instituição em que são filiados. O Fluminense foi aos Estados Unidos, o Flamengo foi ao Ceará, conforme falei com o presidente Peter Siemsen, o Fluminense vai jogar em Volta Redonda no dia 27… Agora, a partir do dia 30, não joga. Só se a intenção for verdadeiramente criar uma guerra. E guerra, amigo, só tem feridos. Qualquer guerra não tem vencedor, só tem feridos. E garanto a você que ninguém está pensando no futebol do país.

Mas é uma tentativa de mudar o futebol do país e a forma como é organizado…

– Estão olhando para o próprio umbigo. Se estivessem pensando no futebol do país, estariam conversando e não tomando esse tipo de atitude. É atitude de alguém que é elitista, que está olhando para o próprio umbigo, uma briga pelo poder e nunca pelo futebol. Nunca, pelo futebol. Alguns têm torcida, mídia, e usam isso distorcendo informações. Querem ignorar isso tudo? Ignorem, vão para o combate. O que tem de ficar claro é que são anarquistas. Estão desrespeitando e desconsiderando o estatuto da CBF que são obrigados a cumprir. Estão achando que CBF e nada é a mesma coisa. Cabe à CBF dizer que é legalista. Se ela permitir uma anarquia, não tem condição de existir mais. Se a CBF é ruim ou boa não está em discussão, o que está em discussão é que não pode atropelar a lei, atropelar o estatuto.

Fonte: Globo Esporte